17/03/2018 19:30 Chuva

Iansã veio buscar a quem era seu por direito

Filha de Iansã não faz feio

Na partida tem tempestade

Raio

Vento

Choro

e grito


Desespero faz morada

Coração é a casa

Ninguém mais sabe mais onde que mora

a vontade de continuar


Mas de algum jeito continua

No trem

Ônibus

Van

Porque parar não pode


Resiste

(será?)

Seremos fortes

Ou Iansã não vem encontrar

Na hora derradeira

onde a vida se completa

na morte.


- Luiza Rodrigues

22/11/2017 19:24 Barro

uma impossibilidade de sentir
mais infinita que o mar
que não é infinito

a inexistência do ser
distração
não sabe mais se mover
uma caneta com tinta mas que falha

a lentidão do pensar
não tinha pó de café pra passar naquela tarde
dormiu

em seus sonhos nadou num rio de barro
quando deitou na margem
endureceu
criou casca
nada mais passava
não mais andava
não mais sentia

acordou chorando
calma, é só um sonho.
derreteu.

- Luiza Rodrigues

5/09/2017 20:53 Uma carta para a segurança que eu achei que tinha mas pelo visto nunca tive

Sempre desconfiei da sua inexistência.
Me tornei uma atriz melhor por isso e enganei muitos corações.
Usei batons em todas as tonalidades de vermelho do mundo e dancei da forma que me tornava a garota descolada da festa.
Recusei bebidas e drogas como uma pessoa bem resolvida
 mas no fundo era só medo de como aquilo poderia me fazer bem.

Sumi da vida de pessoas por pavor de descobrirem meus defeitos.
 e funcionou.

Construí mais muros que um pedreiro de subúrbio
 e engoli tantos choros que quase morri afogada
Comprei roupas, falei gírias e vi filmes pensando em como aquilo iria impactar outros olhos e ouvidos

Fingi uma luta por um corpo que nunca existiu em minha mente
 e enquanto meus números crescem
 as vozes para que eles diminuam gritam tão alto que o espelho se retorce enquanto a boca saliva e o estômago se contrai.
E quando os olhos desejam e o cérebro grita culpa dou de cara com minha insanidade
 aquela que fingi não ter e sigo fingindo.

Mas agora um passado vazio me apavora e acaba com minha capacidade de me concentrar na minha atuação.
Domingos inteiros sem maquiagem fazem meu espírito fugir pelos poros do meu rosto
Sábados preguiçosos que deixaram os muros pequenos e fracos porque preguiçosos fazem as coisas mal feitas
Segundas tão cheias de saudade que o trem se torna mais penoso, o metrô mais cheio e o ônibus mais lento.

Finalmente entendi que a segurança que um dia chamei de minha é fictícia e me rendi aos clichês,
 começando por essa carta. 
 é só a verdade mesmo.

Eu sou o clichê da insegurança,
 muito prazer.

- Luiza Rodrigues

27/07/2017 20:24 A volta

Seus dedos tinham nódulos grossos nas articulações
Deformavam as mãos como se quisessem sair delas e sumir pelo mundo.
Eram sinais de um tempo que dura mais que outros
Sinais de tempos doloridos
Tempos a serem esquecidos mas sempre lembrados nas reuniões em forma de piadas.

As maçãs do rosto apontavam, protuberantes,
para a rua
Tentando chegar mais rápido em casa depois de um dia enorme
Embaixo delas sobrava o rosto cavado
Antigo
Moído
Pisado.

Os olhos não se aguentavam mais.
Pesados por carregar as horas do dia
Caíam sobre as olheiras
Prontos pra buscar sonhos de uma vida que não existe
E que ninguém deixava existir

Encosta a cabeça e cochila
O sono dos engarrafamentos injustos

Pele escura
Feita de sol
de história
E desidratada no sal do suor
Descamava sofrida
Com rugas que faziam caminhos maiores que a linha do trem
O tipo de pele que só as almas exaustas possuem
ou conhecem.

Cabelo lavado com sabonete
Corte baixo
É pra dar pouco trabalho
Assim sobra mais tempo pra trabalhar
Lava o rosto só com água
Que dá mais tempo pra dormir
Ou pelo menos fingir

Mas bom trabalhador não se esconde
Descansa que amanhã o dia volta
Ele sempre volta
Até não voltar mais.

- Luiza Rodrigues

2/07/2017 23:20 Inverno

Eram 6h de uma manhã de inverno
O sol ainda não tinha forças
Então a neblina se aconchegava entre as casas
Se espreguiçando entre as ruas,
torturado os feirantes e pedreiros

Abri as janelas buscando o ar fresco
Mas o vento ainda estava muito gelado
Então as fechei e entrei de novo nas cobertas
impregnadas de cheiro de sono
de preguiça e cansaço
Ainda falta coragem.

Quando o sol se apossou do dia
eu resolvi me apossar da vida e levantar
Um banho morno pra acordar aos poucos
Uns cremes na pele para tentar retardar as rugas
Maquiagem para tentar esconder o tédio
Café para esquecer as dificuldades com o que o dia me esperava

Ligo o rádio
Coloco os fones
Vou pra rua dominar o mundo
Mas descubro que o mundo já fora dominado por alguma força maior que meu espírito
Algo mais maligno que meus pensamentos solitários
Mais cruel que meus olhares arrogantes

No exercício solitário de viajar de trem
Pego o livro da vez e leio
A viagem assim passa rápido
e a mente fica menos pesada
mesmo com toda a melancolia que os trilhos exalam
Melancolia de quem já tem um destino previsível e não pode mudar.

No caminho até o abate
peço um cappuccino para viagem
E penso no romantismo francês
de respeitar os cafés
sempre pedir um croissant para acompanhar
e sentar para saboreá-los
Pensando na vida, lendo um livro.
Talvez seja só mais um esteriótipo idiota, eu não ligo, não agora.

Oito horas fazendo dinheiro para outros
Outros que não eu
Outros que eu não conheço
Outros que não vão aproveitar como eu aproveitaria
Outros que o mundo diz que eu quero ser
Outros que não são eu.

No trem novamente,
mais um capítulo da melancolia
Minha melancolia particular
Lutando entre ser eu
e querer ser outro
E no rádio, a história de mais um deixou de ser qualquer um que queria ser
E virou história de 5 minutos.

Na minha rua avisto minha janela
Fechada, porque choveu
Carrego o cansaço nas costas
Pensando no livro que li
Pensando nas minhas cobertas que abandonei
Na preguiça que disfarcei
Nas rugas que atrasei a chegada
No tédio que escondi

Hora de voltar a vestir tudo de novo
Agora tenho coragem.

- Luiza Rodrigues

27/06/2017 21:02 São Conrado

O ônibus cortava o túnel
A ribanceira beijava a escuridão
E então dois olhos brilhantes no imenso negro
Mostraram que ainda há esperança no mar da meia noite

O ônibus cortava a cidade
Um lado morro no outro varanda
Um lado brilha o outro opaco
E as luzes altas no horizonte
Enganavam o passageiro se fazendo de estrelas
Ingênuo, é tudo lâmpada amarela
Iluminando os anseios de uma vida difícil

as vielas da roça pequena
não chegam na rua golf clube

O ônibus cortava o formigueiro
Tijolo aparente, pintura barata
De frente pra sacada do apartamento
e a menos de 50 metros do bordeaux,
temos a fumaça do churrasquinho
mostrando que quem mora ali não é capitão.
É estivador.

- Luiza Rodrigues

20/06/2017 17:46 Campo Grande

Um país dentro de uma cidade
Feito de bairros de lembranças
Cravadas nas paredes do prédio
Igual as balas que não se comem,
só voam.

Uma vida inteira de criança
Chuva de granizo
Casa do vizinho
Carnaval na vila nova
Patins no corredor

Longe do mundo
Perto da alma
E pela distância de um 786
Se cruza uma história
Se derrete uma infância no calor da rodoviária

Cresceu.

- Luiza Rodrigues

18/06/2017 18:54 Café

Enquanto a chuva alagava a rua
e as calçadas do prédio
A luz tremia na janela
O ventilador girava
sofrido e velho

Já não era mais possível dormir
Então levanta-te
Morto vivo
Ressuscitado pela ansiedade
O medo eterno do que era impossível enfim bater a porta.

Um chá de camomila, por favor.

O que diria o eu de ontem ao eu de hoje?
Nada foi realizado
A luz que era para ser estrela
é só lanterna
que não ilumina nada.

O túnel é maior do que imaginava
e o trabalho também

Foda-se o chá.
Me vê um café, por favor.

- Luiza Rodrigues

21/05/2017 22:04 Interrogação

Quem diz qual é o limite
Entre o pouco e o muito
Entre o forte e o fraco
O certo e o errado?

Quem ensina como ser impulso
E não só pensamento
Pra fugir e descobrir um pouco de si
e um pouco do mundo
talvez um pouco da vida
E então chegar a conclusão que não sabe nada?

Em que momento é dito que é a hora
Que chegou o momento
Agora tudo é certo
Que não há espaço pra dúvidas
E que tudo vai ficar bem
E dar certo no final?

Quem sabe como ficar tranquilo
Naquele momento que o desespero bate
Quando nada é claro
o coração é uma ervilha
amanhã é segunda
e a cabeça está tão cheia que fica vazia?

Quem diz
Quem sabe
Quem conhece
Quem ensina
Quem tranquiliza
?

Alguém?

- Luiza Rodrigues

10/05/2017 22:59 Barra

as ruas largas já dizem
ali não passa nenhum pé
os muros altos só mostram
que só enxerga quem pode
e obedece quem tem juízo

tudo é branco
claro
sutil
liso
formatado
quadrado
planejado

mas alma não anda de carro,
contida. assim elouquece.
a grade não deixa a vida passar

linha reta nem sempre é sinal de perfeição
o grito nem sempre é sinal de desespero
mas a alma é sempre sinal de vida
que pulsa
que corre
que vive.

não deixe a vida se perder na estátua da liberdade.
ela só sabe aprisionar
Ali nas Américas
o sangue parou de circular no shopping
e nem uma namoradeira pra contar a história chegou nesse lugar.

- Luiza Rodrigues



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